🇧🇴 Trem da Morte volta a circular entre a Bolívia e a fronteira com o Brasil após seis anos

Expresso Oriental retomou o serviço de passageiros entre Santa Cruz de la Sierra e Puerto Quijarro, na fronteira com Corumbá (Brasil), e ampliou a capacidade para atender à demanda

Com informações da Revista Fórum, via MSN
Imagem de capa: Wikimedia Commons


Após seis anos fora de operação, o Expresso Oriental, conhecido popularmente como “Trem da Morte”, voltou a transportar passageiros entre Santa Cruz de la Sierra e Puerto Quijarro, na Bolívia, cidade localizada na fronteira com Corumbá, em Mato Grosso do Sul.

Operado pela Ferroviaria Oriental, o serviço foi oficialmente retomado em 29 de maio de 2026 e passou a realizar viagens semanais pelo leste boliviano. A composição percorre aproximadamente 618 quilômetros entre Santa Cruz de la Sierra e Puerto Quijarro, atravessando a região da Chiquitania e parte do Pantanal boliviano. Dependendo das condições da operação, a viagem pode levar até cerca de 20 horas.

A retomada do serviço recolocou nos trilhos uma das ligações ferroviárias mais conhecidas por viajantes brasileiros que atravessam a fronteira por Mato Grosso do Sul. Durante décadas, a rota também ganhou notoriedade entre mochileiros que percorriam a América do Sul por via terrestre.

Uma rota marcada pela história ferroviária da Bolívia

O Expresso Oriental conecta Santa Cruz de la Sierra, um dos principais centros urbanos e econômicos da Bolívia, a Puerto Quijarro, na fronteira com o Brasil. Ao longo do percurso, o trem atravessa localidades da Chiquitania, região caracterizada por comunidades, áreas de vegetação e cidades históricas.

Entre as paradas estão localidades como Cotoca, Pailón, San José de Chiquitos, Roboré, Aguas Calientes, El Carmen e Yacuses, até chegar a Puerto Quijarro.

Além da importância para os passageiros, a ferrovia desempenha papel na integração regional e na conexão das comunidades do leste boliviano. O governo da Bolívia destacou justamente a importância do serviço para a Chiquitania e o Pantanal boliviano durante a cerimônia de reativação.

A estação de Puerto Quijarro mantém uma estrutura simples, com bilheterias e área de espera, funcionando como uma das principais portas de entrada ferroviária para quem chega à Bolívia pela fronteira com o Brasil.

Por que o trem ficou conhecido como “Trem da Morte”?

O apelido “Trem da Morte” permanece associado à história da ligação ferroviária entre Puerto Quijarro e Santa Cruz de la Sierra. Entre as explicações tradicionalmente apresentadas estão os acidentes e descarrilamentos registrados no passado e a utilização da ferrovia para o transporte de pessoas doentes durante períodos de epidemias, incluindo casos relacionados à febre amarela.

A origem exata da denominação, entretanto, não é consensual. Pesquisadores e historiadores já apontaram diferentes versões para a criação e popularização do nome, que acabou incorporado ao imaginário dos viajantes e à própria identidade da rota ferroviária.

O apelido, portanto, não representa as condições atuais do serviço. As composições que voltaram a operar em 2026 contam com recursos como ar-condicionado, assentos reclináveis, televisores, iluminação individual para leitura e banheiros químicos, características bastante diferentes da imagem dos antigos trens precários associados à fama histórica da rota.

Expresso Oriental voltou com 189 lugares e ampliou capacidade

Quando foi retomado, em maio, o Expresso Oriental tinha capacidade para 189 passageiros. A formação inicial era composta por uma locomotiva, carros de passageiros das classes econômica e Pullman e um vagão para bagagens. As tarifas anunciadas eram de 60 bolivianos na classe econômica e 90 bolivianos na classe Pullman.

A procura pelo serviço, porém, superou as expectativas iniciais.

Em julho, aproximadamente um mês após a retomada, a Ferroviaria Oriental anunciou um aumento de 32% na capacidade de passageiros. A nova formação passou a transportar até 248 pessoas e, segundo a empresa, a viagem que marcou a ampliação operou com 100% de ocupação.

A nova composição passou a contar com uma locomotiva, quatro carros de passageiros — três da classe Pullman e um da classe econômica — e dois carros para bagagem acompanhada.

O aumento da capacidade é um dos primeiros indicadores da demanda pelo retorno do transporte ferroviário de passageiros na região.

Viagem semanal entre Santa Cruz e Puerto Quijarro

Atualmente, o serviço opera com uma frequência semanal.

No sentido Santa Cruz de la Sierra–Puerto Quijarro, a saída ocorre às sextas-feiras, às 13h. No sentido contrário, de Puerto Quijarro para Santa Cruz de la Sierra, a partida acontece aos domingos, também às 13h.

O percurso de aproximadamente 618 quilômetros atravessa diferentes paisagens da Chiquitania, proporcionando aos passageiros uma longa viagem pelo interior do leste boliviano. A duração pode chegar a cerca de 20 horas, dependendo das condições da ferrovia e da operação.

Para os brasileiros, a localização de Puerto Quijarro torna a viagem particularmente relevante. A cidade faz fronteira com Corumbá (MS), permitindo que o Expresso Oriental seja utilizado como parte de uma viagem terrestre entre o Brasil e o interior da Bolívia.

Uma ferrovia com importância regional

A Ferroviaria Oriental administra aproximadamente 1.244 quilômetros de linhas ferroviárias na Bolívia, desempenhando papel relevante no transporte ferroviário do leste do país e nas conexões com a região fronteiriça.

A reativação do Expresso Oriental foi resultado de articulações entre a empresa ferroviária, o Ministério de Obras Públicas, o Viceministério de Transportes e representantes das comunidades e municípios da região. O objetivo declarado foi recuperar uma ligação considerada importante para a mobilidade da população e para o desenvolvimento econômico, turístico e comercial da Chiquitania e do Pantanal boliviano.

Mais do que a volta de um serviço de passageiros, o retorno do Expresso Oriental representa a recuperação de uma ligação ferroviária que permaneceu durante décadas no imaginário de viajantes brasileiros e bolivianos.

Agora, com uma operação renovada e maior capacidade de passageiros, o antigo “Trem da Morte” volta aos trilhos — desta vez com uma proposta muito diferente daquela que ajudou a construir sua fama histórica.

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