🇨🇲 Camarões prepara estudos para recuperar ferrovia de Kumba e criar ligação com a República Centro-Africana

Com informações do site Railways Africa
Imagem de capa: Reuters


Camarões está avançando no planejamento de dois projetos ferroviários que podem ampliar e recuperar sua infraestrutura de transporte sobre trilhos. O programa inclui um estudo de viabilidade e projeto preliminar para a reabilitação da ferrovia entre Douala, Mbanga e Kumba, além de outro estudo destinado a avaliar a construção de uma nova linha ferroviária em direção à fronteira com a República Centro-Africana (RCA).

As duas iniciativas fazem parte de um programa financiado com apoio do Banco Africano de Desenvolvimento (AfDB) e foram incluídas no planejamento de contratações divulgado pelas autoridades camaronesas. O objetivo, neste momento, é obter os estudos técnicos e econômicos necessários para determinar a viabilidade dos empreendimentos e estabelecer as condições para uma eventual fase de execução.

A informação foi destacada pelo Railways Africa em sua edição de notícias publicada em agosto de 2026. O veículo aponta que o programa também contempla consultorias relacionadas à operação e à concessão ferroviária no país.

Linha de Kumba representa uma recuperação de infraestrutura existente

O primeiro estudo está relacionado à chamada Western Line, que conecta Douala, Mbanga e Kumba, no oeste do país. O trecho previsto para análise possui aproximadamente 100 quilômetros e deverá ser avaliado tanto do ponto de vista de sua viabilidade econômica quanto das condições necessárias para sua recuperação.

A documentação oficial da Agência Reguladora de Contratos Públicos de Camarões especifica que o trabalho deverá compreender um estudo de viabilidade e um projeto preliminar para a reabilitação da ferrovia Douala–Mbanga–Kumba. A contratação está prevista pelo método de seleção baseado em qualidade e custo.

A linha possui importância histórica para a ligação entre Douala, principal centro portuário e econômico do país, e Kumba, importante cidade da região Noroeste. Documentos do Banco Mundial descrevem o trecho Douala–Mbanga–Kumba como uma linha de aproximadamente 99 quilômetros e registram que os serviços ferroviários nessa ligação foram interrompidos.

Dessa forma, o estudo atualmente planejado não representa simplesmente a modernização de uma ferrovia em operação. Ele poderá servir como primeiro passo para avaliar a possibilidade de recuperar uma ligação ferroviária que deixou de prestar serviços regulares, incluindo a análise das condições da via permanente, obras de arte, sistemas ferroviários e demais componentes necessários à retomada da operação.

Uma nova ligação ferroviária em direção à República Centro-Africana

O segundo projeto possui caráter ainda mais estratégico. Camarões pretende realizar um estudo de viabilidade para avaliar a construção de uma nova ferrovia até a fronteira com a República Centro-Africana, na região leste do país.

Segundo a documentação oficial, a contratação prevê especificamente um estudo de viabilidade para a construção de uma linha ferroviária que conduza à fronteira da RCA. Assim como no projeto de Kumba, a contratação está estruturada como um serviço de consultoria e não significa que a construção da ferrovia já tenha sido autorizada ou iniciada.

A proposta, entretanto, pode ter consequências importantes para a logística regional.

A rede ferroviária camaronesa já desempenha papel relevante no transporte de cargas destinadas ao interior do país e aos países sem acesso ao mar da África Central. Estudos do Banco Mundial destacam que a ferrovia entre Douala e Ngaoundéré possui importância para o atendimento ao norte de Camarões, à República Centro-Africana e ao Chade.

Uma nova ligação ferroviária direcionada à fronteira da RCA poderia, portanto, ampliar a integração entre a infraestrutura portuária de Camarões e os mercados do interior da África Central.

Ferrovia como alternativa para o transporte regional de cargas

O interesse em ampliar essa conexão está relacionado também à posição geográfica de Camarões.

O país possui acesso ao Golfo da Guiné e abriga o porto de Douala, que historicamente funciona como uma das principais portas de entrada e saída de mercadorias para diversos países da região. A ferrovia pode complementar esse sistema ao oferecer uma alternativa de maior capacidade para o transporte de cargas em longas distâncias.

Atualmente, parte significativa do transporte regional depende das rodovias. Uma ligação ferroviária com a fronteira da República Centro-Africana poderia contribuir para reduzir a pressão sobre o transporte rodoviário e melhorar a eficiência logística dos corredores comerciais.

Essa perspectiva é especialmente relevante para cargas de grande volume e baixo valor unitário, como produtos agrícolas, minerais, madeira, combustíveis e contêineres. A existência de uma conexão ferroviária contínua também pode facilitar a formação de corredores multimodais, conectando porto, ferrovia e transporte rodoviário.

Rede ferroviária ainda enfrenta limitações

Os novos estudos também precisam ser compreendidos dentro do cenário atual da infraestrutura ferroviária de Camarões.

A concessão da rede ferroviária à CAMRAIL ocorreu em 1999. Segundo dados reunidos pelo Banco Mundial, a empresa opera uma rede de aproximadamente 984 quilômetros, sendo cerca de 885 quilômetros entre Douala e Ngaoundéré e outros 99 quilômetros correspondentes à linha ocidental entre Douala e Kumba.

A infraestrutura, entretanto, apresenta problemas acumulados de conservação.

Um diagnóstico do Banco Mundial apontou que uma parcela significativa da rede estava submetida a restrições de velocidade em razão das condições da via permanente. O mesmo documento registrou velocidades operacionais reduzidas em determinados segmentos, evidenciando os efeitos do envelhecimento da infraestrutura sobre o desempenho ferroviário.

Nesse contexto, a recuperação da linha de Kumba pode representar não apenas uma expansão da oferta ferroviária, mas também uma oportunidade de reintegrar ao sistema uma infraestrutura que atualmente não desempenha plenamente sua função.

Estudos serão decisivos antes de qualquer obra

A etapa anunciada pelas autoridades camaronesas é, portanto, predominantemente técnica.

Os estudos deverão determinar as condições de implantação ou recuperação das linhas, estimar investimentos, avaliar demanda potencial, analisar impactos ambientais e sociais e estabelecer alternativas de engenharia. No caso da ferrovia Douala–Mbanga–Kumba, o próprio objeto da contratação inclui o desenvolvimento de um projeto preliminar.

No caso da ligação com a República Centro-Africana, o estudo deverá responder a uma questão ainda mais ampla: é técnica e economicamente viável construir uma nova ferrovia até a fronteira?

Somente depois dessa etapa será possível determinar se os projetos poderão avançar para contratos de engenharia detalhada, financiamento e execução das obras.

Um possível novo corredor ferroviário para a África Central

Apesar de ainda estar em fase de estudos, o programa chama atenção por combinar dois objetivos diferentes: recuperar uma ligação ferroviária existente no oeste de Camarões e estudar uma nova conexão internacional no leste do país.

Caso ambos avancem futuramente, os projetos poderão fortalecer a posição de Camarões como plataforma logística regional, aproximando seus portos dos mercados da África Central e ampliando a participação da ferrovia no transporte de passageiros e, principalmente, de cargas.

Por enquanto, porém, o cenário é de planejamento. Não há confirmação de início das obras das duas ferrovias. O próximo passo será a realização das consultorias e dos estudos de viabilidade, que deverão fornecer às autoridades os elementos técnicos e econômicos necessários para decidir sobre a continuidade dos projetos.

Para o setor ferroviário africano, entretanto, o movimento representa mais um sinal de que governos e instituições financeiras vêm avaliando a expansão e recuperação das redes de transporte sobre trilhos como parte de estratégias de integração regional e desenvolvimento logístico.

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