Com informações do site Railways Africa
Imagem de capa: Sinergia Media
Novo corredor pretende integrar os principais sistemas ferroviários do país
Angola está desenvolvendo um projeto para criar um novo eixo ferroviário entre Malanje, Cuito e Menongue, uma ligação que poderá modificar significativamente a configuração da rede ferroviária nacional. A proposta tem como principal objetivo conectar os três grandes sistemas ferroviários do país e aumentar a capacidade de transporte de mercadorias entre áreas produtoras, portos e os principais mercados consumidores.
A iniciativa foi apresentada pelo ministro dos Transportes de Angola, Ricardo Viegas D’Abreu, durante a 23ª edição do CaféCIPRA, realizada em Luanda em 19 de agosto de 2026. Segundo o ministro, a nova ligação deverá recolocar o eixo central da rede ferroviária no centro da estratégia de desenvolvimento do país, aproximando a infraestrutura dos locais onde a produção é realizada.
O projeto faz parte de uma estratégia mais ampla de desenvolvimento de corredores logísticos e transformação estrutural da economia angolana, na qual o transporte ferroviário deverá desempenhar um papel importante no escoamento da produção nacional.
Uma ferrovia para conectar três sistemas
A característica mais relevante do empreendimento é justamente sua função de integração da rede ferroviária angolana.
Atualmente, Angola possui três grandes sistemas ferroviários associados aos principais corredores de transporte do país: o Caminho de Ferro de Luanda (CFL), o Caminho de Ferro de Benguela (CFB) e o Caminho de Ferro de Moçâmedes (CFM).
O novo eixo deverá partir de Malanje, seguir em direção ao Cuito, na província do Bié, e posteriormente alcançar Menongue, no Cuando Cubango. Dessa maneira, a ligação criaria uma conexão transversal entre as diferentes redes existentes, permitindo que cargas possam circular por uma malha mais integrada.
Em maio de 2026, o secretário de Estado para os Transportes Terrestres, Jorge Bengue, já havia informado que a interligação dos três caminhos de ferro havia entrado no processo de contratação. Na ocasião, ele indicou que o corredor Malanje–Cuito–Menongue teria aproximadamente 730 quilômetros de nova linha ferroviária.
A dimensão do projeto mostra que não se trata apenas de uma pequena extensão de uma ferrovia existente, mas de uma intervenção capaz de alterar a lógica de circulação ferroviária em boa parte do território angolano.
Do modelo portuário a uma rede ferroviária nacional
As principais ferrovias de Angola foram historicamente estruturadas em torno de corredores que conectam o interior aos portos marítimos.
O Caminho de Ferro de Luanda liga a capital a Malanje, enquanto o Caminho de Ferro de Benguela atravessa o centro do país em direção à região oriental e à fronteira com a República Democrática do Congo. Mais ao sul, o Caminho de Ferro de Moçâmedes estabelece a ligação entre o porto do Namibe e o interior.
Essa configuração é importante para a exportação e importação, mas também pode limitar as possibilidades de circulação transversal de mercadorias dentro do próprio território.
O eixo Malanje–Cuito–Menongue pretende justamente criar uma nova dimensão para essa rede: em vez de depender exclusivamente das conexões entre o interior e os portos, o sistema poderá contar com uma ligação ferroviária norte-sul capaz de conectar diferentes regiões produtoras.
Segundo o governo angolano, isso permitirá aproximar a infraestrutura ferroviária dos centros de produção e melhorar as condições para o transporte de mercadorias.
Agricultura está entre os principais objetivos
A nova ferrovia também está relacionada à política de aumento da produção agrícola de Angola.
Durante o encontro do CaféCIPRA, o ministro dos Transportes destacou que a expansão da infraestrutura precisa acompanhar o crescimento da produção nacional e reduzir a dependência de produtos importados.
Nesse contexto, a ferrovia poderá funcionar como parte de uma cadeia logística mais ampla, conectando regiões produtoras a centros de distribuição e mercados consumidores.
O desafio é particularmente significativo para a agricultura familiar, que possui menos recursos para financiar transporte, armazenamento e conservação da produção. Segundo Ricardo D’Abreu, produtores empresariais conseguem, em alguns casos, organizar por conta própria parte dessa logística, enquanto pequenos agricultores enfrentam maiores dificuldades para fazer seus produtos chegarem aos mercados em condições adequadas.
A insuficiência logística pode provocar perdas entre a colheita e a comercialização. Por isso, a estratégia anunciada pelo governo não se limita à construção de ferrovias.
Ferrovias, estradas e plataformas logísticas
O planejamento angolano prevê uma integração entre diferentes modalidades de transporte.
Embora o ministro tenha destacado o papel estratégico das ferrovias, também reconheceu que as rodovias continuam sendo responsáveis pela maior parcela do transporte de cargas no país. A expansão ferroviária, portanto, não significa substituir imediatamente o transporte rodoviário, mas criar uma rede mais eficiente e integrada.
A ideia é que estradas possam realizar a distribuição local e regional, enquanto a ferrovia assuma uma parcela maior dos deslocamentos de longa distância e dos fluxos de grandes volumes.
Outro componente dessa estratégia são as plataformas logísticas.
Como exemplo, o ministro citou a plataforma logística de Caála, onde está sendo implantado um sistema de armazenamento refrigerado utilizando contêineres frigoríficos alimentados por energia solar. A intenção é conservar produtos agrícolas antes de seu encaminhamento aos mercados.
O modelo poderá ser reproduzido em outras regiões, incluindo o Namibe e áreas do norte de Angola.
Um projeto de grande extensão
A dimensão territorial do eixo Malanje–Cuito–Menongue merece atenção.
As três localidades estão situadas em diferentes regiões do interior angolano e representam importantes pontos de conexão entre os sistemas econômicos e logísticos do país. Uma nova ferrovia atravessando esse território poderia criar alternativas para o transporte de produtos agrícolas, minerais e outros tipos de carga.
Documentos de planejamento e estudos ambientais do governo angolano já identificavam anteriormente a construção dos trechos ferroviários Malanje–Cuito–Menongue entre os projetos previstos para expansão da rede de transportes ferroviários de longo curso.
Isso demonstra que a proposta não surgiu apenas com o anúncio de agosto de 2026. O corredor já vinha sendo considerado dentro do planejamento de infraestrutura do país e agora ganhou novo destaque nas declarações do Ministério dos Transportes.
Investimento de bilhões de kwanzas
O projeto também já aparece em informações relacionadas ao processo de contratação pública.
Segundo levantamento publicado pelo jornal angolano Expansão em abril de 2026, mais da metade dos valores referentes aos ajustes diretos autorizados no primeiro trimestre daquele ano estava relacionada à nova ferrovia Malanje–Cuito–Menongue. O veículo informou um valor de aproximadamente 5,4 trilhões de kwanzas, associado a financiamento externo.
A informação, entretanto, deve ser interpretada com cautela: os documentos mencionados pelo jornal não detalhavam todas as empresas envolvidas nem identificavam claramente as entidades responsáveis pelo financiamento.
Assim, o valor divulgado deve ser entendido como uma referência ao processo de contratação e financiamento do empreendimento, e não necessariamente como um orçamento final imutável para toda a implantação da ferrovia.
Ferrovia como instrumento de transformação econômica
Para o governo angolano, a construção do novo eixo está associada a uma transformação que vai além do transporte.
A expectativa é criar melhores condições para a produção nacional, reduzir custos logísticos, ampliar o acesso aos mercados e estimular investimentos privados nas regiões atravessadas pela ferrovia.
A integração dos sistemas ferroviários também pode aumentar a flexibilidade operacional da rede. Uma carga originada em determinada região poderá, em princípio, utilizar diferentes corredores para chegar ao destino, dependendo das condições de operação, demanda e disponibilidade de infraestrutura.
Esse tipo de integração é particularmente importante para um país de grandes dimensões territoriais como Angola.
Uma nova configuração para a malha ferroviária angolana
Se o projeto for integralmente implantado, o eixo Malanje–Cuito–Menongue poderá representar uma das maiores intervenções de expansão da rede ferroviária angolana nas últimas décadas.
Mais do que conectar três cidades, a nova linha poderá estabelecer uma ligação física entre os principais sistemas ferroviários do país e criar um corredor capaz de aproximar áreas agrícolas e produtoras dos mercados consumidores.
O empreendimento também poderá fortalecer a integração entre ferrovias, rodovias, portos e plataformas logísticas, criando uma rede de transporte mais diversificada.
Por enquanto, entretanto, o projeto deve ser acompanhado como uma expansão ferroviária em desenvolvimento, dentro de um processo que envolve contratação, financiamento, engenharia e implantação. Os anúncios oficiais indicam claramente a intenção do governo de avançar com o corredor, mas sua execução dependerá das etapas técnicas e financeiras previstas para um empreendimento dessa dimensão.
A proposta demonstra, de qualquer maneira, uma mudança importante na estratégia ferroviária de Angola: depois da recuperação e modernização dos corredores ligados aos portos, o país começa a planejar uma rede mais integrada internamente, capaz de fazer da ferrovia não apenas uma ligação entre o litoral e o interior, mas também um instrumento de conexão entre diferentes regiões produtoras.





